Asceta
O asceta do monte percorria
Perdendo o mundo da periferia
Crendo em Deus seu corpo padecia
Quando mais subia, mais alvo via
Ao longe os fumos da cidade
E a luz surgia caída
O asceta assim se ia
Manuel Vaz
Jardins
Jardins lilases aniladas nascentes
Árvores eloquentes, sem raízes
Pois árvores nómadas de terras
ancestrais
Outras medas de gentes anormais
Desertificado, ao andar o caminhar
Na fonte onde, nascem os poemas
Tal como águas puras na nascente
E um dócil sol do poente
Manuel Vaz
Tirol
No cimo de montanhas, tu és crente
Nas vozes de um fado, acabado em fogo
O coração ao alto revigora
O vento amigo, ferindo em outra voz
O Tirol seu útero aberto
Suas joias, de flores doentes
Que bebem, os alpes fervorosos
Em brigas de bêbados arlequins
Manuel Vaz
Santo António
Ofereci-te um manjerico
Nuns Santo Antónios, de alfama antiga
Dizia no enfeite, na bandeirinha
Quando formos grandes vais casar
comigo
A sardinha aquecia a noite iluminada
Mais a entremeada, dois copos de
vinho
Falavas-me da luz e da cidade
Que o teu coração ficou comigo
Manuel Vaz
Natal
Alma dos meus presentes de Natal
Presépios que eu vou enfeitar
Do menino em palhinhas deitado
Os Reis magos com a fiel estrela
Mais um Natal mais uma alma minha
A árvore de cores refletia
Seja jesus o recordado e a família
De presentes meu coração aquecia
Manuel Vaz
Gil Eanes
Mestre Gil escudeiro do infante
Se ofereceu, pr’a combater o gigante
Que diziam está no Bojador
Pois ninguém se aventurava, tais os
contos de terror
Mestre Gil pelo cabo passou
Não viu monstros nem gigantes
Uma nova rota desenhou
Aquele que chamou o cabo da Boa
Esperança
Manuel Vaz
Espaço
Sonhei que trazias um esquadro
Um compasso e uma régua
Tudo para medires o espaço
Que te separava dos céus
Ao poente da latitude é tanta
Pois nem com um telescópio
Podias medir o quanto
Esses que moram nos céus
Manuel Vaz
Palácio da Ilusão
Sonhei que era um cavaleiro
No palácio da ilusão
Nada parecia o que era
Era grande a confusão
Bebia vinho era água
Olhava o espelho outro via
Era o Rei um mandrião
E grande a recreação
Manuel Vaz
Venenos
Venenos raros em taças de oiro bebias
Vinho era o que te sabia
Mas a ave negra prometia
Teres só sofrimentos
Primeiro caíram-te os dentes
Entre cada taça que bebias
Depois todo o corpo um tormento
As próprias rosas padeciam
Manuel Vaz
Pombos
Dar milho aos pombos
No final da tarde que se deita
Pombos amados por quem ama
Rasgo o meu olhar algo distante
Rasgando a água que os pombos bebem
A tarde extasiada assim desmaia
Ao voar dos pombos na praça antiga
Voando se despedem
Manuel Vaz
Flores
Se acabarem as flores
As nobres que nos enfeitam
Junto aos astros peregrinos
Lancetadas em mares de esperança
Tal será a dor da flor
Que pelos céus a comovida…..
Seja assim um nascer novo
Nova flor em novo dia
Manuel
Vaz
Caleidoscópio
Caleidoscópios, iminentes e
diferentes
A luz das cores, breves momentos
O universo raro e demente
Pois só os loucos, conhecem
pavimentos
Imagens raras de borboletas cadentes
Formas várias de cores diferentes
Mangentas, aniles e tons urgentes
Que o caleidoscópio traduz em
movimentos
Manuel Vaz
Vénus de Milo
Em lugarejos outrora escondidos
Fogos fátuos e amigos tão perdidos
Lanças de amor no coração em brasa
Uma força do além lancetando-os
Dizias que eras tu mas era a estátua
Tal Vénus de Milo, querias ser
Mas de outros lugares estontecias
O amor ao mármore que te perdia
Manuel Vaz
Pensamentos
Mortos mutilados e tão jovens
Mais puros que os lírios em orvalho
Capelas capitais das inocências
Os fuzilados de cabelo ausentes
Partiam, já faz tempos, lentes
Como as distâncias dos momentos
Isolados em repentes
A luz dos seus pensamentos
Manuel Vaz
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