segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Mais poemas e reflecões

Asceta

O asceta do monte percorria
Perdendo o mundo da periferia
Crendo em Deus seu corpo padecia

Quando mais subia, mais alvo via
Ao longe os fumos da cidade
E a luz surgia caída
O asceta assim se ia


                                                                                      Manuel Vaz

Jardins

Jardins lilases aniladas nascentes
Árvores eloquentes, sem raízes
Pois árvores nómadas de terras ancestrais
Outras medas de gentes anormais

Desertificado, ao andar o caminhar
Na fonte onde, nascem os poemas
Tal como águas puras na nascente
E um dócil sol do poente


                                                                         Manuel Vaz

Tirol

No cimo de montanhas, tu és crente
Nas vozes de um fado, acabado em fogo
O coração ao alto revigora
O vento amigo, ferindo em outra voz

O Tirol seu útero aberto
Suas joias, de flores doentes
Que bebem, os alpes fervorosos
Em brigas de bêbados arlequins

                                                                   Manuel Vaz

Santo António

Ofereci-te um manjerico
Nuns Santo Antónios, de alfama antiga
Dizia no enfeite, na bandeirinha
Quando formos grandes vais casar comigo

A sardinha aquecia a noite iluminada
Mais a entremeada, dois copos de vinho
Falavas-me da luz e da cidade
Que o teu coração ficou comigo

                                                               Manuel Vaz


Natal
Alma dos meus presentes de Natal
Presépios que eu vou enfeitar
Do menino em palhinhas deitado
Os Reis magos com a fiel estrela

Mais um Natal mais uma alma minha
A árvore de cores refletia
Seja jesus o recordado e a família
De presentes meu coração aquecia

                                                             Manuel Vaz

Gil Eanes

Mestre Gil escudeiro do infante
Se ofereceu, pr’a combater o gigante
Que diziam está no Bojador
Pois ninguém se aventurava, tais os contos de terror

Mestre Gil pelo cabo passou
Não viu monstros nem gigantes
Uma nova rota desenhou
Aquele que chamou o cabo da Boa Esperança

                                                                                     Manuel Vaz

Espaço

Sonhei que trazias um esquadro
Um compasso e uma régua
Tudo para medires o espaço
Que te separava dos céus

Ao poente da latitude é tanta
Pois nem com um telescópio
Podias medir o quanto
Esses que moram nos céus

                                                                Manuel Vaz


Palácio da Ilusão

Sonhei que era um cavaleiro
No palácio da ilusão
Nada parecia o que era
Era grande a confusão

Bebia vinho era água
Olhava o espelho outro via
Era o Rei um mandrião
E grande a recreação
  
                                                                              Manuel Vaz

Venenos

Venenos raros em taças de oiro bebias
Vinho era o que te sabia
Mas a ave negra prometia
Teres só sofrimentos

Primeiro caíram-te os dentes
Entre cada taça que bebias
Depois todo o corpo um tormento
As próprias rosas padeciam

                                                       Manuel Vaz 

Pombos

Dar milho aos pombos
No final da tarde que se deita
Pombos amados por quem ama
Rasgo o meu olhar algo distante

Rasgando a água que os pombos bebem
A tarde extasiada assim desmaia
Ao voar dos pombos na praça antiga
Voando se despedem

                                           Manuel Vaz

Flores

Se acabarem as flores
As nobres que nos enfeitam
Junto aos astros peregrinos
Lancetadas em mares de esperança

Tal será a dor da flor
Que pelos céus a comovida…..
Seja assim um nascer novo
Nova flor em novo dia

                                      Manuel Vaz

Caleidoscópio

Caleidoscópios, iminentes e diferentes
A luz das cores, breves momentos
O universo raro e demente
Pois só os loucos, conhecem pavimentos

Imagens raras de borboletas cadentes
Formas várias de cores diferentes
Mangentas, aniles e tons urgentes
Que o caleidoscópio traduz em movimentos

                                           Manuel Vaz

Vénus de Milo

Em lugarejos outrora escondidos
Fogos fátuos e amigos tão perdidos
Lanças de amor no coração em brasa
Uma força do além lancetando-os

Dizias que eras tu mas era a estátua
Tal Vénus de Milo, querias ser
Mas de outros lugares estontecias
O amor ao mármore que te perdia

                                           Manuel Vaz

Pensamentos

Mortos mutilados e tão jovens
Mais puros que os lírios em orvalho
Capelas capitais das inocências
Os fuzilados de cabelo ausentes

Partiam, já faz tempos, lentes
Como as distâncias dos momentos
Isolados em repentes
A luz dos seus pensamentos

                              Manuel Vaz

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