Camélia
D’oiros turquesas, pérolas negras
Como a cor da tua pele canela
Com teus longos braços me abraças
Nossas bocas unidas num eterno beijo
Assim a eloquente tarde não aprende
A amar aqueles que amam
Por tanto amor tarde presente
Não cai sequer um lamento
Manuel Vaz
Galinha
O padre come galinha
O sacristão á noite furtou
Mas Sr. Prior eu mereço
Não mereces não senhor
Vendo assim tal desprezo
O sacristão profícuo
Nem que seja a meio da noite já
acabou
Que o estomago deste padre se encha
de bolor
Manuel Vaz
Nobreza
Vinhos mais licores outros prazeres
Esta malta ociosa, em biombos se
despiam
Era vinho os seus odores arrotaram os
licores
Pois de orgia foi a noite, e o Sol
marca meio-dia
Pós de talcos pós de arroz a esconder
A face da meia-noite a levantar-se de
dia
ÉS assim velha nobreza
Mais pobre do que um mendigo
Manuel Vaz
Luas
Perfumes de rosas e outras fragâncias
Era o odor da noite ao luar
Lua cheia, mas tão cheia que parecia
um balão p’lo ar
Lua de outros estilos e elegâncias
Cetins arminhos pedrarias raras
P’la lua conquistar
Seja lua cheia o céu na terra
Como o olhar das estrelas ao luar
Manuel
Vaz
Vendaval
Vendaval de agonias várias
No jardim conventual
Dizem até as pobres freiras
Que o mundo está-se a acabar
Era a chuva no nabal que prometeu
ficar
A assustar as próprias freiras
Que rezavam na esperança
Do mundo não se acabar
Manuel Vaz
Padre do lazer
Andar só e ocupado
Ter tanto para fazer
Cuidar das pombas alheias
Deste padre do lazer
O pobre padre não foi de modos
E do garrafão foi beber
Esqueceu-se das hóstias
Pois não tinha o que comer
Manuel Vaz
Noites
Tocam os sinos, labutam as freiras
O Sol na eira trás promessas
De um muro novo crente
Como o são as procissões
Terras novas em seu esplendor
Bons pastos de amor e sementeiras
Que nas noites derradeiras
Surgem como clarões
Manuel
Vaz
Naus
Cometas fátuos de timbres delirantes
Quando um doce amor, do mar regressa
Na capela velas cremes vão ardendo
Luzes luminares navegantes
Luzires do abrir florir em flor
Oiros, pratas, pérolas e gaivotas
As naus ao regressarem tão devotas
Em coros baixinho ouviam, graças a
Deus
Manuel Vaz
Orações
Abriste as duas mãos, traças-te um
arco iris
Falaste-me pelo Século que passou
Quando as pessoas viviam maviosas
Crentes e penitentes com as suas
orações
Hoje já és velhinha
Mas trazes recordações
De como juntavas as mãos
Em atos e contrições
Manuel Vaz
Galeras
Ondas raras deslumbrantes bentas
Que pelo rendilhado da praia
Veem entregar seus despojos
Aqueles que não pertencem ao mar
Tesouros de naves, perdidas galeras
Alçapões de oiros e de marfins
Dormem no mar fundo pedrarias
Guardadas pelas sereias que as disputam
Manuel Vaz
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