segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Mais poemas de Manuel Vaz

Camélia

D’oiros turquesas, pérolas negras
Como a cor da tua pele canela
Com teus longos braços me abraças
Nossas bocas unidas num eterno beijo

Assim a eloquente tarde não aprende
A amar aqueles que amam
Por tanto amor tarde presente
Não cai sequer um lamento


                                          Manuel Vaz

Galinha

O padre come galinha
O sacristão á noite furtou
Mas Sr. Prior eu mereço
Não mereces não senhor

Vendo assim tal desprezo
O sacristão profícuo
Nem que seja a meio da noite já acabou
Que o estomago deste padre se encha de bolor

                                          Manuel Vaz

Nobreza

Vinhos mais licores outros prazeres
Esta malta ociosa, em biombos se despiam
Era vinho os seus odores arrotaram os licores
Pois de orgia foi a noite, e o Sol marca meio-dia

Pós de talcos pós de arroz a esconder
A face da meia-noite a levantar-se de dia
ÉS assim velha nobreza
Mais pobre do que um mendigo

                                       Manuel Vaz

Luas

Perfumes de rosas e outras fragâncias
Era o odor da noite ao luar
Lua cheia, mas tão cheia que parecia um balão p’lo ar
Lua de outros estilos e elegâncias

Cetins arminhos pedrarias raras
P’la lua conquistar
Seja lua cheia o céu na terra
Como o olhar das estrelas ao luar

                                       Manuel Vaz

Vendaval

Vendaval de agonias várias
No jardim conventual
Dizem até as pobres freiras
Que o mundo está-se a acabar

Era a chuva no nabal que prometeu ficar
A assustar as próprias freiras
Que rezavam na esperança
Do mundo não se acabar

                                              Manuel Vaz

Padre do lazer

Andar só e ocupado
Ter tanto para fazer
Cuidar das pombas alheias
Deste padre do lazer

O pobre padre não foi de modos
E do garrafão foi beber
Esqueceu-se das hóstias
Pois não tinha o que comer

                                          Manuel Vaz

Noites

Tocam os sinos, labutam as freiras
O Sol na eira trás promessas
De um muro novo crente
Como o são as procissões

Terras novas em seu esplendor
Bons pastos de amor e sementeiras
Que nas noites derradeiras
Surgem como clarões

                                       Manuel Vaz

Naus

Cometas fátuos de timbres delirantes
Quando um doce amor, do mar regressa
Na capela velas cremes vão ardendo
Luzes luminares navegantes

Luzires do abrir florir em flor
Oiros, pratas, pérolas e gaivotas
As naus ao regressarem tão devotas
Em coros baixinho ouviam, graças a Deus

                                   Manuel Vaz

Orações

Abriste as duas mãos, traças-te um arco iris
Falaste-me pelo Século que passou
Quando as pessoas viviam maviosas
Crentes e penitentes com as suas orações

Hoje já és velhinha
Mas trazes recordações
De como juntavas as mãos
Em atos e contrições

                               Manuel Vaz

Galeras

Ondas raras deslumbrantes bentas
Que pelo rendilhado da praia
Veem entregar seus despojos
Aqueles que não pertencem ao mar

Tesouros de naves, perdidas galeras
Alçapões de oiros e de marfins
Dormem no mar fundo pedrarias
Guardadas pelas sereias que as disputam

                                                       Manuel Vaz

Sem comentários:

Enviar um comentário