segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Poetry II

VELUDO
Desprende dos teus dedos de veludo
O elixir dos poetas
Aquilo que os Faz fortes inconfessáveis
Como peregrinos ascetas

VERTIGEM
Cai da altitude que é profana
E na vertigem olha teu corpo morto sorri
Tu o excremento que há na terra
Numa tela traça teu retrato

ANJO MUTILADO
Olhei-te ser destroçado
O teu olhar destruído
Anjo sem asas
Que o céu te leve
E que na terra não sejas mais aparecido

PERDÃO
Ó tu humano que foges
Do fogo fátuo e da companheira
Foges de uma vida inteira
Pede perdão


GRUTA
Difícil é cair na infinita gruta
Onde a luz escasseia ou não
Vencer sete ventres sem tréguas
Ver nascer um filho anão

SILÊNCIO
O silêncio é mudo
 Perdeu a sua língua
Com ares de defunto
Que despe a sua alma

O longo olhar, os fumos
Que decretaram o óbito
Um cemitério raso
Como rasa é a terra
Que aos poucos come

Alma liberta evola-te
Sobe aos céus, tua nudez
Terra, só a laje fria
Testemunhou sua passagem


PREGUIÇA
O Sol e a maresia deleitava-se
Espreguiçando-se dourada areia
Tudo parecia absoluto
E num relance se abria

ONDAS CADENTES
As ondas cadentes emergiam
Como vagas estonteadas caiam
Enroladas como os ventos
Morriam

FUGA
Rios que fogem do degredo
De alguma aldeia fugida

FLORES DE ALABASTRO
A laje de alabastro raro
É a campa em que caíste
Quando procuravas dormida

Rios, artérias de um corpo morto
Que ganham vida


SUBURBANA
Obliqua citadina
Que como o mar cresce
Reto o dobrado desce
Fluviais avenidas

POMBAS
Gritos são pombas
Que fenecem
Tão sérias
Num salto mortal
Despertam

MARESIA
Teu corpo de sal coberto
Na estação que acalma dores
Animais cobertos se disputam

PALHAÇO
Solar amargo, já sem ti
Na prostração sem saída
O riso de um palhaço ecoando
Como se um punhal me libertasse



                                                                Manuel Vaz