sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Os primeiros do Ano

RASGOS

O Sol rasgou o meu corpo
Como longa lança olvidada
E a chama envolveu-me todo
Até o meu coração dizer mais não!

Assim fleuma chama esvaindo-se
De eternas pétalas e lírios vãos
Depois de um mundo quase logro
A luz encheu-se de mim


                                          Manuel Vaz


RÚSTICOS

Pinheiros altivos, carvalhos longos
Roçando as copas pelos céus
Amar as flores, dar comer às aves
Como na floresta fosse dia de Natal

Violeta, lírios, rosas e outras
Hastes, cálices corolas às cores
Enfeitando tudo o que é natural
Jardins intensos rústicos louvores

                                          Manuel Vaz


NA SELVA

Na selva do pensamento algumas pétalas se agitam
Deixando partir flores amadas
Essas dos bons momentos
Dos passos e dos sacramentos

Belas companheiras penitentes
Num fogo fátuo enchendo fulgores
~Dispersam-se doces amigas
A selva desfaz-se em flores

                                    Manuel Vaz

MAVIOSAS

As estrelas, as maviosas cintilantes
Cruzam o espaço de mãos crentes
Beijam uma cruz de uma capela
Caindo sobre flores diversas e tormentos

Rosas, jasmins e desfolhadas
Límpidas, estontecidas desmaiadas
Sobem os céus deslumbradas
Como elas nenhumas há na terra

                                     Manuel Vaz

NOVOS DIAS

Patéticos dias, peregrinos tristes
Como a amendoeira perde as suas flores
Iluminam-se um a um meus amores
E esqueço que é Inverno

Esperar pelas pequenas flores
Pelo chilrear dos passarinhos
Pois seja tudo uma eterna Primavera
Tu sempre presente onde estou

                                               Manuel Vaz


BEIJO

Belas e dolentes madrugadas
Esperando auroras de desejos
Como eu espero e aspiro amor
Nos meus lábios, lábios teus até ser dia

Se depois eu te disser, outro dia
Sabes que não o digo por vaidade
Teu amor me enche de vontades
E eu receio que a demora se olvida

                                                     Manuel Vaz

PASSOS

Passos dos meus passos deixam areias
Tácitas testemunhas de que eu estive
Pelas praias, pelos rios, pelas ribeiras
Pelas rochas, pelos seixos até em ti

Assim tomado de águas transparentes
Tal gazes que me envolviam
Tapando meu corpo nu, derradeira
Vontade de ser livre, como fogueiras


                                         Manuel Vaz

VITRAL

Mais lindo vitral eu não vi
Que todos os dias ao meio dia
Vestia o altar às cores
As cores da sagrada família

Como um caleidoscópio se vestia
E a gente crente entendia
Que a luz era uma inocente
Tal criança que brincava e ria

                                          Manuel Vaz

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