VELUDO
Desprende dos teus dedos de veludo
O elixir dos poetas
Aquilo que os Faz fortes
inconfessáveis
Como peregrinos ascetas
VERTIGEM
Cai da altitude que é profana
E na vertigem olha teu corpo morto
sorri
Tu o excremento que há na terra
Numa tela traça teu retrato
ANJO MUTILADO
Olhei-te ser destroçado
O teu olhar destruído
Anjo sem asas
Que o céu te leve
E que na terra não sejas mais
aparecido
PERDÃO
Ó tu humano que foges
Do fogo fátuo e da companheira
Foges de uma vida inteira
Pede perdão
GRUTA
Difícil é cair na infinita gruta
Onde a luz escasseia ou não
Vencer sete ventres sem tréguas
Ver nascer um filho anão
SILÊNCIO
O silêncio é mudo
Perdeu a sua língua
Com ares de defunto
Que despe a sua alma
O longo olhar, os fumos
Que decretaram o óbito
Um cemitério raso
Como rasa é a terra
Que aos poucos come
Alma liberta evola-te
Sobe aos céus, tua nudez
Terra, só a laje fria
Testemunhou sua passagem
PREGUIÇA
O Sol e a maresia deleitava-se
Espreguiçando-se dourada areia
Tudo parecia absoluto
E num relance se abria
ONDAS CADENTES
As ondas cadentes emergiam
Como vagas estonteadas caiam
Enroladas como os ventos
Morriam
FUGA
Rios que fogem do degredo
De alguma aldeia fugida
FLORES DE ALABASTRO
A laje de alabastro raro
É a campa em que caíste
Quando procuravas dormida
Rios, artérias de um corpo morto
Que ganham vida
SUBURBANA
Obliqua citadina
Que como o mar cresce
Reto o dobrado desce
Fluviais avenidas
POMBAS
Gritos são pombas
Que fenecem
Tão sérias
Num salto mortal
Despertam
MARESIA
Teu corpo de sal coberto
Na estação que acalma dores
Animais cobertos se disputam
PALHAÇO
Solar amargo, já sem ti
Na prostração sem saída
O riso de um palhaço ecoando
Como se um punhal me libertasse
Manuel Vaz
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